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Reflexos e Reflexões

História de um objeto transitivo… Ursinho de Peluche ou muito mais?


Olá, sou o Felpudo, um simples ursinho de peluche com olhos de botão e um nariz de linha retorcida, mas embora possa parecer um brinquedo comum, tenho uma história muito importante para contar: a da minha vida com um menino chamado Lucas e de como me tornei para ele naquilo que os psicólogos chamam de um objeto de transição.


Conheci o Lucas com apenas sete meses. Ele gostou de mim assim que me viu, escolheu-me entre muitos outros disponíveis no seu quarto e eu logo percebi que o meu papel era mais do que apenas um companheiro de brincadeiras pois teria uma missão muito especial na sua vida. O Lucas falava comigo sobre medos e alegrias, chorava nos meus braços quando estava triste e abraçava-me com força quando feliz. Desde o primeiro dia, partilhámos inúmeras aventuras e momentos inesquecíveis e, absorvendo felicidades e angústias, eu estava sempre ao seu lado.


Quando era bem pequenino, o Lucas encontrava conforto e segurança ao abraçar-me na hora de dormir. Nessa altura eu tinha um pêlo macio e um cheirinho que o acalmava e o embalava no seu sono tranquilo enquanto a mãe Teresa lhe cantava uma música especial.


Lembro-me da primeira vez que o Lucas foi à creche. Sentindo o desconhecido de uma nova aventura, ele segurava-me com força, como um marinheiro apegado ao leme no meio da tempestade. Naquele dia, fui mais do que um ursinho, fui um farol na escuridão da incerteza, um porto seguro onde podia ancorar as suas emoções. Eu era o seu companheiro fiel, sempre presente nos momentos de descoberta do mundo ao seu redor, ajudando-o a lidar com a separação dos pais e a estabelecer relacionamentos saudáveis com outras pessoas em novos ambientes. Comigo ao seu lado o Lucas sentia-se mais corajoso para se aventurar no seu crescimento, como quando teve o seu primeiro dia de escola e ali estava eu também bem seguro na sua mão e a dar-lhe confiança. Era assim uma ponte entre o seu mundo interno e o externo, que lhe trazia calma nos momentos de mudança e transição, como ao adormecer ou ao enfrentar situações novas. No fundo, era uma espécie de intermediário emocional, que fornecia uma sensação de continuidade e familiaridade, ajudando no seu desenvolvimento emocional e na construção de uma base sólida para explorar o mundo com confiança.


Uma vez o Lucas estava muito assustado por ter que ir ao médico. Eu fui com ele e estive ao seu lado o tempo todo. Ele apertou-me com tanta força que pensei que as minhas costuras iam romper. Nesse momento, eu também não era apenas um ursinho, mas um depósito para o seu medo. Era em mim que ele projetava a sua emoção, tornando-me o seu objeto de transição.


Também o acompanhei em todas as suas aventuras e estava presente em diversas brincadeiras. Escondíamos-nos debaixo dos cobertores e almofadas, enfrentávamos dragões imaginários, fazíamos piqueniques com os seus bonecos preferidos, explorávamos jardins mágicos! Sentia todo o entusiasmo do Lucas e divertíamos-nos muito juntos! Celebrávamos cada conquista, como o dia em que conseguiu pedalar sem rodinhas ou um dia em que ganhou um prémio na escola. Quando chegou a casa (aí já me esquecia por vezes em casa, não sentindo necessidade de me levar sempre consigo) correu para o quarto, pegou-me nos seus braços e começou a saltar pela casa. Nesse dia, eu fui o objecto da sua alegria e orgulho. O meu pêlo macio conheceu o sabor doce da alegria do Lucas, a felicidade indescritível das suas conquistas ao longo do seu crescimento, eu era o convidado de honra nas suas celebrações.


Mas a vida, com as suas montanhas-russas emocionais, também nos trouxe momentos de muita tristeza e angústia. Lembro-me das noites em que o Lucas me agarrava após um pesadelo e eu absorvia as suas lágrimas e medos, transformando-me no guardião dos seus sentimentos mais profundos. Enquanto me abraçava e molhava o meu pêlo com a sua tristeza, eu acolhia-a e permitia-lhe expressar as suas emoções de forma segura. Sim, ele recorria muito a mim quando estava triste ou assustado pois era uma âncora para os seus sentimentos, uma presença reconfortante. Como quando perdeu o seu avô e me apresentou uma nova estrelinha.


Eu estava sempre presente, fosse em casa ou viagens. Uma vez, ele e a família foram passar uma semana a Paris e eu fiquei esquecido em casa. Quando se apercebeu ficou muito aflito, mas a sua mãe explicou-lhe que eu estaria à espera quando voltasse e ajudou-o a encontrar um objeto substituto temporário para esses dias, o que lhe permitiu acalmar-se e adaptar-se.


Fui entendendo que, como um objeto transitivo, eu permitia ao Lucas gerir as suas emoções, tornando-as mais tangíveis e concretas. Eu era o meio através do qual o Lucas podia compreender e expressar o que sentia e, acima de tudo, entender que é válido sentir. Na infância as emoções podem ser esmagadoras e assustadoras. As crianças estão a aprender a navegar num mundo cheio de novos sentimentos e experiências. Enquanto objeto de transição eu dava ao Lucas um meio concreto de entender e processar essas emoções, era um companheiro constante que o ajudava a sentir-se seguro e compreendido.


Mas a minha história com o Lucas não é apenas sobre lidar com as emoções dele. Eu também o ajudei a aprender sobre o mundo e a estabelecer conexões significativas. Ao projetar as suas emoções em mim, ele estava a aprender também sobre empatia, expressar-se de maneira mais saudável e a estabelecer relações positivas consigo mas também com os outros.


Os pais do Lucas sabiam bem que cada criança tem o seu próprio ritmo emocional e que não havia uma idade específica para largar o seu objeto de transição, que à medida que ele crescesse iria descobrir novos interesses e eu perderia, gradualmente, importância. Por isso, nunca o pressionaram e nunca tiveram a ideia de me esconder ou deitar fora. Isso seria uma quebra de confiança e uma forma de agressão. Eles sabiam que seria um processo individual e delicado e estavam conscientes que respeitar a escolha e o apego do Lucas para comigo era essencial para o seu desenvolvimento emocional saudável.


Assim foi, como em todas as histórias…e com o passar dos anos, o Lucas foi crescendo, já não dependia tanto de mim para se sentir seguro e confiante e começou a explorar o mundo sem a necessidade constante da minha presença, tornando-se mais independente. Comecei a acompanhá-lo em menos situações e a passar mais tempo no seu quarto, esperando pacientemente pelos momentos em que precisava de mim. Os colegas na escola também já não levavam os seus objetos companheiros e o Lucas decidiu começar a deixar-me em casa, intencionalmente, e arrumou-me num cantinho. Confesso que eu próprio também já estava a precisar de descansar pois, gasto pelo tempo e pelas emoções, comecei a desbotar e a romper. Agora eu continuava a ser seu amigo, mas ocupava principalmente um lugar especial no seu coração, guardando memórias preciosas da sua infância. Ali ficava eu, a observar o Lucas a tornar-se num menino independente e corajoso e sabendo que tinha feito um bom trabalho e o tinha ajudado a lidar com as transições e desafios da infância.


A minha história com o Lucas mostrou-me o quão importante um objeto transitivo pode ser na vida de uma criança. Não apenas um peluche, mas um amigo, consolador, confidente, um porto seguro num mundo em constante mudança e, acima de tudo, um meio confiável para explorar e expressar emoções. Sei que tive um papel crucial no crescimento e bem-estar emocional do Lucas, que o ajudei a navegar pelas diferentes fases da sua infância, proporcionando conforto, segurança e amor em cada abraço, enquanto ele construía a sua identidade, autonomia e ganhava maturidade emocional. Eu sou o Felpudo, o objeto de transição do Lucas. E foi um privilégio ajudá-lo a navegar no complexo mundo das emoções.


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